sábado, 1 de novembro de 2008

HISTÓRIA DE FAMÍLIA

Organizava, naquele momento, uma das gavetas no meu quarto. Não lembro se punha lá roupas minhas ou de cama. Usava um short xadrez que fazia par com uma blusa branca, xadrez somente nas mangas. Devia ser a décima empregada que chegava na nossa casa num período de aproximadamente 7 anos. Eu tinha 7 anos na época.
Era branca, de origem alemã, bastava olhar. Cabelos curtos, escuros, magra. As feições eram bravas. Demorei a vê-la sorrir. Ela vinha de um período de muitos anos de trabalho na casa de uma professora, com cuja família guardava laços praticamente familiares, vim saber com o passar do tempo. Não devia estar sendo fácil pra ela entrar na rotina de uma outra família, cuja mãe estava grávida, além de ter já dois filhos pequenos, de 7 e 9 anos.
Eu e meu irmão não éramos santos. Pelo contrário. Nos revelávamos mimados e teimosos em vários momentos. Entretanto, culpar-nos pela contrariedade em receber uma estranha, de movimentos rápidos, feições rudes e capricho imensurável com a limpeza e organização da casa seria injusto.
A adaptação foi rápida. Logo, sobretudo por morar na nossa casa, ela se tornou parte da rotina diária da família. Não lembro detalhes desse período, mas tudo se torna claro na memória após o nascimento do meu irmão mais novo.
Meu irmão nasceu mirradinho e aparentemente desnutrido. Minha mãe mesma diz que ele era feio. Os cuidados sobre ele foram sempre redobrados, dada a sua minusculidade. A mamadeira de leite sempre incluía um ou dois ovos de codorna para dar sustança. O trato melindroso foi tanto que ele se tornou excessivamente mimado. Quem passava a maior parte do tempo com ele era a empregada, de quem raramente se ouvia um “não” em resposta a um pedido do meu irmão mais novo. Em situações de conflito entre mim e ele, ou entre ele e o meu irmão mais velho, quando o juiz era a empregada, a culpa caía sempre sobre mim ou sobre o meu irmão mais velho.
Pegamos uma certa aversão. Aversão não só à empregada mas ao meu irmão mais novo, que ganhava tudo o que queria no resmungo ou no choro. Ela o havia adotado praticamente como filho, o que possivelmente gerou em nós um sentimento estranho de inveja. Nós tínhamos, creio, inveja porque ele tinha praticamente duas mães e nós só uma (como se isso não bastasse).
Os arranca-rabos eram constantes, e os palavrões não demoraram a surgir, principalmente da parte do meu irmão mais velho. Eu tinha mais medo.. medo não dela, mas medo da minha mãe, que repetia: “Se ela for embora, eu é que não vou fazer o serviço”.
Houve um momento, em especial, que me marcou. Me lembro como se fosse hoje. Meu irmão havia quebrado o braço, numa queda de bicicleta. Fiquei morrendo de dó, porque assisti ao momento. Ajuntei-o do chão num gesto sincero de socorro e pena. Ele sarou, mas como a fratura foi muito próxima ao cotovelo, não conseguia mais dobrar o braço menos de 90 graus, de modo que conseguisse encostar no próprio ombro. O médico receitou exercícios de fisioterapia que poderiam ser realizados em casa. Quem foi o encarregado? A empregada, lógico, que era quem sempre dava banho nele.
Um determinado dia (que decisão infeliz), decidi tomar banho com eles. No momento dos exercícios, ele resmungava de dor, e eu perguntei, mansamente (não estou mascarando a situação), se ela não estava forçando muito. A reação dela foi totalmente inesperada e violenta que eu até hoje me questiono sobre o que ela pensava e sentia em relação a mim. Parecia ódio, um sentimento que, para explodir, precisava de um simples empurrãozinho como a minha pergunta inocente. Se eu queria fazer os exercícios com ele, se eu achava que ela não sabia.. eu não tinha sugerido nada disso. Até que veio o bruto tapa na cara, assistido (graças a deus!, me serviu de testemunha) pela minha tia. O único que já recebi em toda a minha vida, até hoje, aos 23 anos. Ainda não o compreendo, mas a dor de recebê-lo está guardada.
O tempo passou, as relações se tornaram amenas. Nem tão próximas, nem tão distantes. Simplesmente dividíamos o mesmo espaço e interagíamos nos momentos básicos e necessários.
Saí de casa para estudar. Dentre outras formas de moradia, me instalei em uma república com mais duas companheiras. Cada uma delas era de uma forma: uma era preguiçosa, tudo pra ela estava ok. A outra, embora não preguiçosa, era bastante porca (arroz dentro da pia, casca de banana dentro da pia, tudo ia pra dentro da pia como se só ela utilizasse).
No período de moradia em república foi que eu me percebi, e cheguei a brincar que era, como a empregada lá de casa. Eu estava com duas pessoas estranhas que não respeitavam nem colaboravam com a manutenção da limpeza da casa. Elas eram eu e o meu irmão mais velho, e eu aquela cujo trabalho era desvalorizado e desrespeitado.
Talvez pela distância e pela saudade dos velhos tempos da infância o ponto de vista em relação a ela tenha se alterado. Na distância, ela era, então, um membro da família, que atendia o telefone quando eu ligava e que me abraçava quando eu chegava de férias. Às vezes ainda a sentia meio desconfiada com a minha aproximação, mas o tempo foi ajustando tudo.
A proximidade agora se revela por sentimentos que emergem em situações diversas. A perda dos dois bebês fez aflorar a tristeza e o pesar por não poder nada mais dizer a não ser “sinto muito... outro poderá vir”. Tanta coisa conquistada com tanto esforço: casa própria e finalmente um homem formidável com quem levar uma vida a dois, e tudo o que faltava para a felicidade completa perde-se duas vezes. Por quê? O que teria ela feito?
Por outro lado, a felicidade da maternidade gera um sentimento de amor, amor por uma criança como se ela fosse sobrinho de sangue. Uma criança que vai passar boa parte da infância num espaço onde eu cresci, vai assistir a televisão que eu assisti, provavelmente vai subir nas mesmas árvores, vai pegar bergamota nos mesmos pés, e pular amarelinha na mesma rua.
Ela faz parte da nossa família. Não só porque está lá presente, fisicamente, todos os dias. Mas porque desperta em nós amor.

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