terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A TRAGÉDIA EM SANTA CATARINA

O que precisa haver em um cenário para que ele seja considerado uma tragédia e um momento de horror, de modo que a poderosa mídia se mobilize na arrecadação de fundos para apoio e reconstrução?
Nos últimos dias, o Brasil e o mundo têm acompanhado o caos instalado em Santa Catarina pelas chuvas incessantes. A dor de milhares de famílias desabrigadas, observando impotentes tudo o que levaram anos para conquistar indo barranco abaixo, mobilizou a mídia na formação da opinião pública de que estamos em um momento de abrir o coração e ajudar a quem precisa.
Lindo e necessário, mas um tanto intrigante e incompreensível. A pergunta que inicia o texto pode esclarecer. Repito: O que precisa haver em um cenário para que ele seja considerado uma tragédia e um momento de horror, de modo que a poderosa mídia se mobilize na arrecadação de fundos para apoio e reconstrução?
A solidariedade no país parece ter cor, classe social e geografia bem definidas.
Por que a tragédia nordestina, de freqüência diária, não nos comove ao ponto de agirmos, de colocarmos a mão no bolso para ajudar?
Por que não há campanhas de arrecadação de verba para reconstruir casas de tantos paulistanos da periferia que, volta e meia, perdem tudo devido às chuvas?
Não se trata de diminuir o sofrimento dos catarinenses, mas de questionar por que o calvário das crianças que há três semanas faziam, provavelmente, mais de 3 refeições diárias, iam à escola, tinham casa de alvenaria e famílias bem estruturadas, comove mais do que o das crianças nordestinas, paulistanas, maranhenses, etc., que é cotidiano?
Quem nunca ouviu falar do culto ao estrangeiro?
Mas ao estrangeiro idealizado: europeu, branco, de posses. O sul do nosso país é contemplado como a região da qualidade de vida e do desenvolvimento, tal qual os países europeus são vistos por boa parte dos brasileiros. Chegaram, inclusive, a dizer que o sul do país, se fosse separado do restante, se desenvolveria.
Parece, portanto, ser mais tocante ver alguém de bens perdendo as suas posses do que alguém que já não tem nada, perdendo... perdendo o quê? A dignidade? Um conforto que nunca experimentou?
Não são os nordestinos que se acostumaram com a pobreza.
Os brasileiros é que já se acostumaram com o sofrimento do nordestino.

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